ARTE/PERFORMANCE NA EDUCAÇÃO


ARTE/PERFORMANCE NA EDUCAÇÃO

Eliezer Pandolfo da Silva

Mestre em Literatura Comparada

Arte-educador da rede municipal de Barra do Guarita

Hoje, existem várias teorias em arte que podem ajudar no desenvolvimento estético e critico do educando, principalmente no que se refere aos processos de produção e apreciação artística. São teorias que misturam o relacionamento com as práticas e o acesso ao conhecimento da arte, porém sem ter a pretensão de se chegar a uma verdade única.

A arte ao longo dos tempos também veio ganhando e incorporando novos conceitos, arte como técnica, materiais artísticos, lazer, processo intuitivo, liberação de impulsos reprimidos, expressão, linguagem, comunicação, o que tem sido objeto de várias interpretações.

Porém, a concepção de arte que pode vir a ajudar na estruturação e fundamentação de uma proposta de ensino e aprendizagem artística, estética e que atenderia a essa mobilidade conceitual seria uma articulação do fazer, do representar e do exprimir. E isso ao longo da historia se deu de várias maneiras, tendências e períodos.

(...) Por exemplo, há uma ênfase no exprimirem momentos como o Romantismo e o Expressionismo que defendem a criação artística e a concepção de beleza subordinadas ao sentimento interior, em oposição à correspondência a modelos e regras de construção técnico-inventiva, como ocorria no Classicismo. Tais manifestações ocorreram em função de determinadas condições estéticas, históricas e de difusão de novas ideias. (FUSARI, 2001, p.22)

Assim, as ações do produtor da obra artística, a própria obra de arte estão incorporadas com o fazer técnico-inventivo, bem como o representar com imaginação o mundo da natureza e da cultura, também o de exprimir sínteses de sentimentos, ocasionando um processo de apresentação dos mesmos à sociedade e nos atos dos expectadores.

Dessa forma, em um contexto histórico social que inclui o artista, a obra de arte, os difusores comunicacionais e o público, a arte se apresenta como produção, trabalho e construção. Nesse mesmo contexto a arte é representação, é conhecimento do mundo; é, também, expressão dos sentimentos, da energia interna que se manifesta e que se simboliza.

E no que cabe aos artistas e aos produtores de trabalhos de natureza artística, são eles que elaboram suas obras e elas se concretizam através de sínteses formais resultantes de sentimento, atos técnicos, inventivos e estéticos.

Em cada sociedade e em cada época, as obras artísticas são também sínteses que dependem das trajetórias pessoais de quem as fez e de suas concepções sobre ser humano, gosto, valores, etc. Logo, os artistas, autores, em suas relações com a natureza e a cultura produzem obras que se diferenciam formal e expressivamente.

O processo expressivo é, então, gerado pelo sentimento resultante de uma síntese emocional que é provocada por forças de ordem interna e externa: são relações entre o sujeito e as coisas, o subjetivo e o objetivo, o ser sensível e o símbolo. A elaboração de obras artísticas depende, portanto, de um saber formar, ou transformar internacional a partir de materiais e por meio da elaboração de representações expressivas.

Sendo assim, a obra de arte se concretizará efetivamente quando houver um contato com as pessoas, quando o ato criador se completa, porque os dois processos tanto de recepção tem que ser levados em consideração, assim acontecerá o entendimento de uma obra de arte em um contexto social, onde os conceitos estéticos se difundem. Porém essa experiência será modificada de acordo com o público, classe social ou formação cultural, daí a importância efetiva da arte na educação.

Enfim, todos esses elementos mobilizadores devem se manter efetivos na arte, onde serão assimilados paulatinamente pelo educando, ao longo de todo o processo escolar.

[...] a disciplina de Arte deverá garantir que os alunos conheçam e vivenciem aspectos técnicos, inventivos, representacionais e expressivos em música, artes visuais, desenho, teatro, dança e artes audiovisuais. Para isso é preciso que o professor organize um trabalho consciente, através de atividades artísticas, estéticas e de um programa de Teoria e História da Arte, inter-relacionados com a sociedade em que eles vivem. (FUSARI, 2001, p.24)

É possível alcançar um conhecimento mais amplo e aprofundado da arte, incorporando ações como ver, ouvir, se mover, sentir, pensar, descobrir, etc., a partir dos elementos da natureza e da cultura, refletindo, formando e os transformando. E é com essa abrangência que a arte deve ser apropriada por todos os educandos sem nenhuma discriminação.

No contexto da educação escolar, a disciplina Arte compõe o currículo compartilhado com as demais disciplinas num projeto de envolvimento individual e coletivo. O professor de Arte, junto com os demais docentes e através de um trabalho formativo e informativo, tem a possibilidade de contribuir para a preparação de indivíduos que percebam melhor o mundo em que vivem, saibam compreendê-lo e nele possam atuar. (FUSARI, 2001, p. 24).

Pensar a educação em Arte dessa maneira deve ser acessível a todos, numa concepção de escola democrática, e deve garantir a tomada dos conhecimentos artísticos e estéticos. Mas para que isso se concretize é preciso se inteirar e perceber o processo de evolução histórica em que a Arte se encontra.

O ESPAÇO/RECONHECIMENTO DA ARTE

Sendo a escola o primeiro espaço formal onde se dá o desenvolvimento de cidadãos, nada melhor que por ai se dê o contato sistemático com o universo artístico e suas linguagens: artes visuais, teatro, dança, musica e literatura. Contudo, o que se percebe é que o ensino da arte está relegado ao segundo plano, ou é encarado como mera atividade de lazer e recreação. Desde o profissional contratado, muitas vezes tendo que lidar com os conteúdos das linguagens de forma polivalente, até o pequeno número de horas destinadas ao ensino das linguagens artísticas.

Ao lingo dos anos, muito se tem falado e escrito sobre a necessidade da inclusão da arte na escola de forma mais efetiva. Muitas experiências têm acontecido, e as intenções parecem apontar para um caminho interessante, mas é no confronto com a prática pedagógica no campo da arte que se nota a grande distância entre teoria e prática. Muitos equívocos são cometidos e a questão passa batida na maioria das vezes em que se questionam as vivências com a arte.

[...] é a importância devida à função indispensável que a arte ocupa na vida das pessoas e na sociedade desde os primórdios da civilização, o que torna um dos fatores essenciais da humanização. O fundamental, portanto, é entender que a arte se constitui de modos específicos de manifestação da atividade criativa dos seres humanos ao interagirem com o mundo em que vivem, ao se conhecerem e ao conhecê-lo. (FERRAZ, 1999, p. 16)

Este quadro vem reforçar a postura inadequada de que o contato com o universo magico da arte é importante, mas desnecessário. Esta contradição vem sendo objeto de reflexão e pratica por parte dos arte-educadores, interessados em reverter a situação em favor de uma escola que valorize os aspectos educativos contidos no universo da arte.

Reconhecendo não só a necessidade da arte, mas a sua capacidade transformadora, os educadores estarão contribuindo para que o acesso a ela seja um direito do homem. Aceitar que o fazer artístico e a fruição estética contribui para o desenvolvimento de crianças e de jovens e ter a certeza da capacidade que eles têm de ampliar o seu potencial cognitivo e assim conceber e olhar o mundo de que a prática pedagógica tenha coerência, possibilitando ao educando conhecer o seu repertório cultural e entrar em contato com outras referências, sem que haja a imposição de uma forma de conhecimento sobre outra, sem dicotomia entre reflexão e prática.

Portanto é nessa abrangência que a arte deve compor os conteúdos de estudos nos cursos de Arte na escola e mobilizar as atividades que diversifiquem e ampliem a formação artística e estética dos estudantes. As vivências emotivas e cognitivas, tanto de fazeres como de análises do processo artístico nas modaldades de artes visuais, música, teatro, dança, artes audiovisuais devem abordar os componentes ‘’artista-obra-público-modos de comunicação’’ e suas maneiras de interagir na sociedade. (FERRAZ, 1999, p. 17)

Nesse sentido, a sala de aula deve ser um espelho do atelier do artista ou do laboratório do cientista. Neles são desenvolvidas pesquisas, técnicas são criadas e recriadas, e o processo criador toma forma de maneira viva, dinâmica. A pesquisa e a construção do conhecimento se tornam um valor tanto para o educador quanto para o educando, rompendo com a relação sujeito/objeto do ensino tradicional. Este processo poderá ser desafiador. Delimita-se o ponto de partida e o ponto de chegada será resultante da experimentação. Dessa forma o ensino da arte estará intimamente ligado ao interesse de quem aprende.

Assim, a prática educativa está embasada não no talento ou no dom, mas na capacidade experimental de cada um. Dessa forma, se estimula os educandos a se arriscarem a desenhar, representar, dançar, tocar, escrever, pois se trata de uma vivência , e não de uma competição. Uma proposta em arte que parta desse princípio traz para as suas atividades um grande numero de interessados. Estas crianças e estes jovens se reconhecerão como donos de seus próprios caminhos e saberão avaliar de que forma se dão os atalhos.

A arte fará parte de suas vidas e terá um sentido, deixando de ser aquela coisa incompreensível e elitista, distante de sua realidade.

A concepção de arte no espaço seja toda e qualquer produção e as maneiras de conceber e organizar a vida social é levada em consideração. Cada grupo inserido nestes processos se configura pelos seus valores e sentidos, e são atores na construção e transmissão dos mesmos. A cultura está em permanente transformação, se ampliando e possibilitando ações que valorizam a produção e transmissão do conhecimento. Cabe então negar a divisão entre teoria e prática, entre razão e percepção, ou seja, toda fragmentação ou compartilhamento da vivência e do conhecimento.

Os educadores poderão abrir espaços para manifestações que possibilitam o trabalho com a diferença, o exercício da imaginação, a autoexpressão, a descoberta e a invenção, novas experiências perceptivas, experimentação da pluralidade, multiplicidade e diversidade de valores, sentidos e intenções. Portanto:

[...] é muito importante que o professor conheça e saiba organizar a graduação dos assuntos no âmbito de fazer e apreciar arte. E saiba também propor atividades que propiciem vivências de ensino e aprendizagem dos mesmos, considerando tanto os mais simples como os mais complexos. Para isso o professor deve estar atento às características da faixa etária, interesses e ‘’direitos’’ culturais artísticos de seus alunos, no mundo contemporâneo. [...] (FERRAZ, 1999, p. 20)

Um programa educacional não pode tornar a arte num elemento decorativo e festeiro. A arte valoriza a organização do mundo da criança e do jovem, sua autocompreensão, assim como o relacionamento com o outro e com seu meio. Assim com o relacionamento com o outro e com seu meio. Assim contextualizamos o trabalho na vertente do lúdico e do fazer, com a ação mais significante do que os resultados, ou seja, não se propõe atividades que não levam a nada. Se pensarmos num projeto e no seu processo, cada etapa apresentará resultados que poderão se tornar ou não um outro projeto. Os resultados dos processos podem ser uma etapa ou sua finalização em espetáculos teatrais, coreográficos, musicais, exposições, mostras, performances etc.

O ensino da arte, hoje, é uma área do saber, uma disciplina com origem, história, questões e metodologia. Assim como em outros ramos do conhecimento, não há uma homogeneidade entre as abordagens nesta área. Entender e estimular o ensino da arte nesta perspectiva tornará a escola um espaço vivo, produtor de um conhecimento novo, revelador, que aponta para a transformação.

O CORPO/PERFORMANCE NA EDUCAÇÃO

A construção da imagem do corpo, ao longo de sua trajetória nas artes, é caracterizada por aspectos físicos, sociais, psicológicos e políticos. Através desta imagem são articulados aspectos estéticos, que são configurados dentro do contexto cultural. As diversas designações dadas ao corpo, como símbolo de expressão nas artes plásticas, apresentam um leque de diversidades que acompanham das características sociais as pessoas de cada criador.

O processo de criação que é continuo do homem é estruturado através de configurações da vida do artista. É também através do exercício da percepção e da reflexão que este conserva a liberdade de expressão e, tem a possibilidade de articular o limite do que será compreendido, enquanto arte, dentro de uma hierarquia de valores que a sociedade estabelece.

O artista possui poder de transformação através de sua própria construção, sendo que crescer e renovar, indagando os segredos da existência, faz parte da coerência interior existente em cada ser criado. A consciência interior, também chamada de alma tem como centro as atividades psíquicas e os estados de consciência do artista, no conjunto que forma a sua individualidade.

A alma como o conjunto das disposições intelectuais, morais e afetivas do ser humano, nos faz perceber que cada um de nós atravessa um processo com sua maneira própria de ser e fazer. Corpo suporte e corpo produção. As ações gestuais se exteriorizam através da investigação com o corpo.

A performance está intimamente ligada às manifestações do corpo recorrentes no discurso estético; onde a presença física é parte essencial da obra. É esta característica que leva o artista a mergulhar em sua própria criação.

Assim, a performance implica nas problemáticas, peculiaridades, particularidades e concepções do corpo, vindo a ser uma ótima aliada no ambiente escolar, já que tanto o professor quanto e educando se esquivam da percepção sobre seus corpos. Cabe ao professor vivenciar o corpo como uma possibilidade de experimentação e inventividade. Perceber que aprendizagem ocorre no corpo todo e não somente na cabeça, visto que:

Como lugares de inscrição de cultura, dos corpos são retirados e acrescentados elementos que apresentem desvios, excesso, falta... Atos de extração ou de acréscimo em relação ao corpo remetem-no a determinados códigos e o submetem a normas que são internalizados por um meticuloso processo de educação. (SOARES, 2001, p. 109)

E é exatamente o que acontece, o corpo/individuo quando nasce já está sujeito a processos de modificação, repressão e regras. A maneira como as sociedades se organizam foram e serão assim. Os corpos são educados por toda a realidade que os cercam, por todas as coisas com as quais convivem, pelas relações que estabelecem em espaços definidos e delimitados por atos de conhecimento. Uma educação que se mostra como face polissêmica e se processa de um modo singular, se dá não só por palavras, mas por olhares, gestos, coisas, pelo lugar onde vivem.

E trazendo a performance no ambiente escola/sala/educando, se terá a possibilidade de desentubar, soltar aquele corpo preso pelas hierarquias já citadas.

A performance, antes de qualquer coisa, é provocadora de transformação estética e modificadora do próprio juízo estético sobre o corpo e sua significação social. E o educando começará a perceber que seu corpo não terá mais a sua significação perene, pois a performance se caracteriza como uma arte que não se compra e não se vende, é antes de tudo uma execução de ideias, arte conceitual  por excelência onde quem a executa se torna criador e ator de sua obra. Não existem mediações, é o corpo do indivíduo e o público.

O educando poderá se libertar das amarras a que está condicionado, reconhecer que tem um corpo e que este corpo clama por socorro. Começará a valorizar e a cuidar melhor de seu corpo.

O educando também pede em silêncio que alguém ou alguma linguagem o liberte deste casulo, que o faça se esquecer das heranças das escolas tradicionais, já que:

[...] A boa educação, aliás, cuida para que a gente fique bem quietinho, não fale alto, não gesticule, use menor espaço disponível, de preferência não respire. Será boa para nós, essa boa educação?. (...) atos de ‘’higiene’’ corporal que melhorem a percepção de nós mesmos (...). Resultado: indivíduos mais livres e felizes. ( AZEVEDO, 2000, p. 20)

O educando conhecendo e valorizando o seu corpo como meio facilitador de linguagem artística saberá com certeza se “controlar” de maneira inteligente.

Assim, na performance o educando encontra uma expressão/linguagem tão ilimitada, e acontece o esperado:

Então... o corpo cria. Cria a si mesmo, quando refaz suas estruturas, quando se modifica, quando metaboliza alimentos. Cria as relações a sua volta, quando ocupa um lugar no espaço, se ‘’achata’’ ou se ‘’expande’’, quando se expressa de forma verbal e não-verbal. Cria tensões e desejos, de alcançar algo, tocar em alguém, se retrair, agredir, fugir, acrinhar. Cria situações expressivas, quando dança, canta, representa, gesticula, imita, mimetiza. E cria fatos. Gera conhecimento. Gera emoções. Cria doenças. Cria saúde. (AZEVEDO, 2000, p. 26)

Na verdade, o corpo/indivíduo se torna uma fonte inesgotável de expressividade, acredita em sua capacidade inventiva e criadora, e se torna indispensável o papel do corpo no processo de criação e ensino-aprendizagem.

Outro elemento positivo presente na performance é que ela estabelece interconexões entre a vida real e o jogo, entre o real e o imaginário, o estado da realidade e do fantasmagórico, apresentando sentido próprio sem querer representar o objeto. E essas dualidades oferecidas pela performance proporcionam ao educando estabelecer as contradições existentes entre o real e o fictício.

Arte híbrida, efêmera e polêmica, a performance deve ganhar cada vez mais espaço no ambiente educacional vindo a acabar com todas as mistificações a que o corpo alheio foi submetido.

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, José Clóvis ET alii (org.). Utopia e democracia na educação cidadã. Porto Alegre: Editora da Universidade, 2000.

FERRAZ, Maria Heloísa Corrêa de Toledo. Metodologia do Ensino da Arte. São Paulo: Cortez, 1999.

FUSARI, Maria F. de Resende E FERRAZ, Maria H. C. de Toledo. Arte na educação escolar. São Paulo: Cortez, 2001.

SOARES (org.), Carmem Lúcia. Corpo e História. São Paulo: Autores Associados, 2001.



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